sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Brasil paga o menor juro da História. Chora, FHC, chora ! | Conversa Afiada

Chora, FHC!...

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FHC: o Sete de Setembro é uma palhaçada ! | Conversa Afiada

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Mino: agora, o mensalão tucano ! | Conversa Afiada

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FHC e Clinton: uma das fraudes de FHC | Conversa Afiada

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Comandante Jonas é lembrado após 43 anos do sequestro ao embaixador dos EUA | Jornal Correio do Brasil

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Palavra Livre - Davis Sena Filho: Belo Monte, a oposição de ONGs, de artistas da Glo...

Palavra Livre - Davis Sena Filho: Belo Monte, a oposição de ONGs, de artistas da Glo...: No decorrer desta semana, eu vi novamente em canais de televisão alguns comentaristas de prateleira, além de pessoas ligadas a ONGs e in...

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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Não há verdade que se esconda para sempre


Não há verdade que se esconda para sempre
Fausto Jaime

Em nosso país, acontecimentos recentes comprovam que não há verdade que alguém possa esconder para sempre. Não há silêncio absoluto para a memória. Em algum momento, ela se fará ouvir. Em alguma hora e algum momento ela fará soar aquilo que quiseram calar.

Este é um processo que toca fundo muitas fibras tensas – inclusive as da dor, da humilhação e do esquecimento. Essas são as cicatrizes que poderão impedir novas feridas, novas sangrias. Querer calar o que aconteceu torna-se, cada vez mais, impossível. Pretender negar a memória e adormecer a justiça é anular o presente. Represar essas águas é inútil: elas saberão retomar o seu fluxo. Também dessas águas é feito o presente. São essas águas que conduzirão ao futuro.

Ao longo do tempo e dos processos judiciais que buscam restabelecer a verdade, resgatar a memória e aplicar a justiça em nosso país, os desaparecimentos começam a ser explicados. Os responsáveis se tornam conhecidos. A justiça, embora lenta, poderá se concretizar.

Uma grande parte dessa história ainda precisa ser reconstruída. Os responsáveis pelas barbaridades cometidas no período da ditadura civil e militar ainda não foram julgados e condenados. Recentemente, tivemos a publicação do livro “Memórias de uma Guerra Suja” com base em depoimentos de Cláudio Guerra, um policial com participação ativa no período da ditadura, responsável pelo assassinato de inúmeros combatentes nas luta contra o regime ditatorial durante vinte anos, em período recente de nossa história.
Neste momento, assistimos ao lançamento do livro do amigo e companheiro Renato Dias. Trata-se do livro "Luta Armada/ALN-Molipo/As Quatro Mortes de Maria Augusta Thomaz". O livro conta a história não só da mulher que dá nome à obra, mas também de seu companheiro Márcio Beck, do Movimento de Libertação Popular (Molipo) e de outros momentos e episódios da ditadura militar brasileira.
O livro traz a história do assassinato destes combatentes contra a ditadura, ocorrido no estado de Goiás. Considero uma contribuição significativa do amigo e companheiro Renato Dias. Todos nós sabemos do desaparecimento de um irmão do Renato Dias ocorrido em nosso estado. Tenho fé de que mais dias ou menos dias este desaparecimento também será elucidado.
Acredito seriamente que continuaremos a tropeçar com novas histórias desses tempos tenebrosos. A Comissão da Verdade, criada pela Presidenta Dilma Rousseff, tem uma missão histórica importantíssima: a missão de elucidar inúmeras situações ainda não explicadas. Vários sobreviventes certamente contarão os seus calvários. O seu papel será sacudir o passado e reconhecer alguns de seus algozes ainda não inteiramente identificados ou contribuir para a punição dos responsáveis por crimes hediondos. Os torturadores e assassinos, os ladrões de bebês e os violadores de mulheres deverão ser julgados. Eles deverão ter o direito elementar que negaram às suas vítimas: o direito de defesa. A memória deverá voltar ao seu rumo. A verdade deverá sair do silêncio infame ao qual quiseram que fosse condenada. A justiça deverá se impor.

Não há presente sem passado. Não há presente sem memória. Não há futuro sem presente. Dessa simplicidade, é feita a história. Desse princípio é feita a vida. Nestes momentos, somos tocados pela voz da memória. Há aqueles que se incomoda. Estes sons da liberdade e da justiça incomodam muito a todos os que até o momento tiveram o benefício do silêncio da história. No entanto, é natural que as vítimas resgatem o direito fundamental de saber exatamente o que aconteceu com os seus entes queridos. É natural que seja assim!

Ainda existem documentos do período da ditadura que até agora continuam secretos. Estes documentos poderão revelar a vasta rede de informações da ditadura. Junto com as atividades da rede, deverão ser revelados nomes de informantes ainda descobertos.

Muitos preferem o silêncio dos tempos. Este silêncio recobre os seus crimes. No fundo, todos nós sabemos que eles, nem ninguém, não conseguem esconder a verdade para sempre. Esse é o medo dos infames criminosos que sacrificaram inúmeros patriotas e lutadores pela justiça. Esse pesadelo sacode as suas noites. Eles sabem que sua impunidade está perto de acabar. Em alguma hora a voz da verdade e da memória poderá se fazer ouvir. Quando isto ocorrer, os responsáveis pelo horror e pelo esquecimento perderão de vez sua pequena e miserável vitória, sua única conquista: a impunidade.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Livro: As redes de atenção à saúde


Livro: As redes de atenção à saúde


Lançamento AS REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE de Eugênio Vilaça Mendes , disponível para download emhttp://new.paho.org/bra/apsredes/ 
A OPAS/OMS Brasil em parceria com Ministério da Saúde e o Conass lança a segunda edição do livro As Redes de Atenção à Saúde de autoria de Eugênio Vilaça Mendes. Trata-se de uma obra de fundamental importância e relevância para os temas Redes de Atenção e APS, com conteúdo coeso, baseado na melhor evidência disponível nessa área de conhecimento.

O SUS, como sistema dinâmico, precisa incorporar novos processos organizativos que permitam sua modelagem às transições epidemiológicas, demográficas, econômicas e sociais que permeiam a população brasileira. Esse livro traz subsídios e evidência de que as Redes de Atenção são o melhor arranjo para superar esses desafios e integrar os sistemas de saúde.

Ressaltamos ainda a capacidade e intelecto do autor desta obra, Eugênio Vilaça Mendes, uma das maiores referências científicas atuais no Brasil para o tema de Redes de Atenção e APS.
Convidamos a todos a verificar o valor da contribuição desse autor para o SUS e desfrutar do conhecimento e informações aqui contidos no livro.

domingo, 13 de maio de 2012

Lamento dos Afrodescendentes: treze de Maio


Lamento dos Afrodescendentes: treze de Maio

Leonardo Boff

12/05/2012
                                   
Hoje, 13 de maio, é o dia das mães. Mas não esqueçamos a mães negras, especialmente as “amas-de-leite”, as mucamas. Quantas crianças brancas não foram por elas  amamentadas e salvas?
Agora, finalmente a Justiça fez justiça aos afrodescendentes, pagando uma dívida histórica que pesava em nossa consciência branca coletiva. Foram-lhes concedidas as cotas de acesso às universidades federais. Mas a nossa dívida começou apenas a ser paga. Há tantas reparações e compensações ainda por fazer.
Enquanto isso  a Paixão de Cristo continua pelos tempos afora no corpo destes crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único destes seus irmãos e irmãs que estejam ainda pendendo de alguma cruz.
Assim pensa também o budismo tibetano. O  bodhisattwa (o iluminado) pára no umbral do Nirvana e suplica retornar ao mundo da dor – samsara – para viver solidariamente  com quem sofre no reino humano, animal e vegetal. Nesta mesma convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:
”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito e com maná de alimentei. Preparei-te bela terra, e tu, a cruz para o teu rei”.
Rememorando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. A paixão de Cristo continua na paixão do povo afrodescendente. Falta a segunda abolição, da miséria e da fome, como postula o senador Cristovam Buarque. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação, vindos das senzalas, hoje das favelas ao redor de nossas cidades:
“Meu irmão branco,  minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”
Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.
Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome e da opressão.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!
Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica da Bahia. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.
Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, “peça”, escravo. Fui a mãe-preta para teus filhos e filhas. Cultivei os campos, plantei o fumo para o cigarro e a cana para o açúcar. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse escravo.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!
Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, mestiços e brancos. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza, continue como realidade cotidiana e efetiva.
Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas sagradas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!
Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos e filhas, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca, diminuindo assim o valor de nossa alma de negros, dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre tu me preteres em favor de um branco. Porque sou negro.
E quando se pensaram políticas públicas para reparar a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades e assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social. Mas finalmente a Justiça agora nos fez justiça e nos abriu as portas das universidades federais.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”
“Responde-me, por favor”.
E nós brancos, os que dispomos do ter, do saber e do poder, geralmente calamos, envergonhados e cabisbaixos. É hora de escutar o lamento destes nossos irmãos e irmãs afrodescendentes, somar forças com eles e construir juntos uma sociedade inclusiva, pluralista, mestiça, fraterna, cordial onde nunca mais haverá, como ainda continua havendo no campo, pessoas que se atrevem a escravizar outras pessoas. 
Oxalá possamos gritar: “escravidão nunca mais”. E enxugando as lágrimas podemos dizer como no Apocalipse: “Tudo isso passou”.

MEMORIAS DE UMA GUERRA SUJA


MEMORIAS DE UMA GUERRA SUJA
Formato: Livro
Colaborador: GUERRA, CLAUDIO
Editora: TOPBOOKS
R$ 43,90 
Livraria Cultura

Esta obra busca revelar o destino de mais de uma dezena de desaparecidos políticos, procura explicar como vários líderes de esquerda foram assassinados e traz novos elementos para elucidar fatos ocorridos num momento conturbado da história brasileira - a ditadura militar. Episódios como atentado ao Riocentro, uma ação terrorista num país africano com o apoio clandestino do governo militar brasileiro, o acidente de Zuzu Angel, os ataques à bomba em diversas redações de jornais do país e as mortes do delegado Fleury e do jornalista Baumgarten ganham novas versões na voz de um ex-delegado do DOPS - Cláudio Guerra. Ele se arrependeu de seus atos e contou tudo o que viu, num relato considerado chocante. 'Memórias de uma guerra suja' tem como objetivo revelar os bastidores de uma parte do trabalho de destruição da esquerda brasileira durante os anos 70 e início dos 80.
Acabei de ler este livro e ele é realmente um testemunho da Guerra Suja desenvolvida pelas forças repressivas da Ditadura Civil Militar que dominou o país por 20 anos a partir de 1964. Na medida, em que participei ativamente do movimento de resistência ao regime, conheci muitas de suas características violentas e repressivas. No entanto, o testemunho de Cláudio Guerra aos jornalistas Marcello Netto e Rogério Medeiros ainda me conseguiu surpreender pela violência e frieza com que eram cometidos os assassinatos dos opositores ao regime.

sábado, 28 de abril de 2012


Reflexões  em tempos de Cachoeiras e quejandos

Livro muito interessante para se ler e refletir neste momento é A Arte de Furtar. Monumento da prosa barroca, A Arte de Furtar, hoje dominantemente atribuída ao jesuíta Padre Manuel da Costa (1601-1667), é uma das obras literárias emblemáticas do período da Restauração e o ponto mais alto da literatura portuguesa de costumes dos séculos XVI a XVIII. No entanto, a sua primeira edição indica seguidamente ter sido «Composta pelo/ Padre António Vieira,/ Zeloso da Patria».

A corrupção, aliada à impunidade, de quem é filha, já indignava o autor de A Arte de Furtar, escrito entre os séculos 17 e 18:

"Se vossa casa, ontem, era de esgrimidor, como a vemos hoje à guisa de príncipe? E até vossa mulher brilha diamantes, rubis e pérolas, sobre estrados broslados? Que cadeiras são essas que vos vemos de brocado, contadores da China, catres de tartaruga, lâminas de Roma, quadros de Turpino, brincos de Veneza etc.?”

"Eu não sou bruxo nem adivinho; mas me atrevo, sem lançar peneira, a afirmar que vossas unhas vos granjearam todos esses regalos para vosso corpo, sem vos lembrarem as tiçoadas com que se hão de recambiar no outro mundo. Porque é certo que vós os não lavrastes, nem os roçastes, nem vos nasceram em casa como pepinos na horta".

"Furtam pelo modo infinito, porque não tem fim o furtar com o fim do governo e sempre lá deixam raízes, em que vão continuando os furtos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse".

Sobre a Política, em A Arte de Furtar encontramos:
«Todos falam na política, muitos compõem livros dela, e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. E atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter pouco conhecimento dela, sei que é uma má peça, e que a estimam e aplaudem, como se fora boa; o que não fariam bons entendimentos, se a conheceram de pais e avós, tais, que quem lhos souber, mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas. E para que não nos detenhamos em coisa trilhada, é de saber que no tempo em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no Diabo, que o fez vomitar peçonha; e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex materia putridi, ao qual chamaram os críticos Razão de Estado. E esta senhora saiu tão presumida, que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome Amor Próprio, filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça. Criou-se nas cortes de grandes príncipes, embrulhou-os a todos. Teve por aios o Maquiavelo, Pelágio, Calvino, Lutero e outros doutores desta qualidade, com cuja doutrina se fez tão viciosa, que dela nasceram todas as seitas e heresias que hoje abrasam o mundo. E eis aqui quem é a senhora Dona Política».

Em A Desordenada Cobiça dos Bens Alheios - Antiguidade e Nobreza dos Ladrões (1619), Carlos García diz que a arte da ladroagem é superior à alquimia, pois do nada faz tudo: "Haverá maior nobreza no mundo que ser cavaleiro sem rendas e ter os bens alheios tão próprios que se pode dispor deles a seu gosto e vontade, sem que lhe custe mais que pegar-lhes?". E denuncia o engano em que muitos vivem, "crendo que foi a pobreza a inventora do furto, não sendo outros senão a riqueza e a prosperidade".

Padre Vieira, nascido há 400 anos, alerta em seu "Sermão do Bom Ladrão" (1655): "Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam".

Segundo Cícero, "o maior estímulo para cometer faltas é a esperança de impunidade".

A proposta de Capistrano de Abreu foi reduzir a Constituição a dois artigos: "Artigo 1º: Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Artigo 2º: Ficam revogadas todas as disposições em contrário".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo

Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo.

O filósofo francês Dany-Robert Dufour refletiu sobre as mutações que esvaziaram o sujeito contemporâneo de relatos fundadores. Essa ausência é, para ele, um dos elementos da imoralidade liberal que rege o mundo hoje. Seu trabalho como filósofo crítico do liberalismo culmina agora em um livro que pergunta: que indivíduo surgirá depois do liberalismo? Talvez seja o caso, defende, de recuperar o Marx filósofo, que defendia a realização total do indivíduo fora dos circuitos mercantis.
Alguns já o veem terminado, outros a ponto de cair no abismo, ou em pleno ocaso, ou em vias de extinção. Outros analistas estimam o contrário e afirmam que, embora o liberalismo esteja atravessando uma série crise, seu modelo está muito longe do fim. Apesar das crises e de suas consequências, o liberalismo segue de pé, produzindo seu lote insensato de lucros e desigualdades, suas políticas de ajuste, sua irrenunciável impunidade. No entanto, ainda que siga vivo, a crise expôs como nunca seus mecanismos perversos e, sobretudo, colocou no centro da cena não já o sistema econômico no qual se articula, mas sim o tipo de indivíduo que o neoliberalismo terminou por criar: hedonista, egoísta, consumista, frívolo, obcecado pelos objetos e pela imagem fashion que emana dele.

A trilogia da modernidade liberal é muito simples: produzir, consumir, enriquecer. O filósofo francês Dany-Robert Dufour refletiu sobre as mutações pós-modernas que esvaziaram o sujeito contemporâneo de relatos fundadores. Essa ausência é, para o filósofo, um dos elementos da imoralidade liberal que rege o mundo contemporâneo. Seu trabalho como filósofo crítico do liberalismo se desenvolveu em livros como “Le Divin Marché” (O Divino Mercado) e culmina agora em um apaixonante livro – “O indivíduo que vem… depois do liberalismo”, editora Denoel, Paris, 2011 -, que faz uma pergunta que poucos fazem: como será o indivíduo que surgirá depois do liberalismo? 
Dany-Robert Dufour não só lança mais uma diatribe sobre o sistema liberal, mas explora os conteúdos sobre os quais pode se refundar a humanidade depois desse pugilato planetário do despojo e da estafa que é o ultraliberalismo. Mas, a humanidade não se funda no automatismo e, sim através dos indivíduos. Seu livro, “L’individu qui vient…après le libéralisme” ,  explora o transtorno liberal do passado e esboça os contornos de um novo indivíduo ao qual o filósofo define como “simpático”, ou seja, aberto aos outros que também o constituem.

O liberalismo, que se apresentou como salvador da humanidade, terminou levando a o ser um humano a um caminho sem saída. Você considera o fim desse modelo e se pergunta sobre qual tipo de ser humano surgirá depois do ultraliberalismo?
Dany-Robert Dufour: No século passado conhecemos dois grandes caminhos sem saída históricos: o nazismo e o stalinismo. De alguma maneira e entre aspas, depois da Segunda Guerra Mundial fomos liberados desses dois caminhos sem saída pelo liberalismo. Mas essa liberação terminou sendo uma nova alienação. Em suas formas atuais, ou seja, ultra e neoliberal, o liberalismo se plasma como um novo totalitarismo porque pretende gerir o conjunto das relações sociais. Nada deve escapar à ditadura dos mercados e isso converte o liberalismo em um novo totalitarismo que segue os dois anteriores. É então um novo caminho sem saída histórico. O liberalismo explorou o ser humano. 
O historiador húngaro Karl Polanyi, em um livro publicado depois da Segunda Guerra Mundial, demonstrou como, antes, a economia estava incluída em uma série de relações sociais, políticas, culturais etc. Mas, com a irrupção do liberalismo, a economia saiu desse círculo de relações para converter-se no ente que procurou dominar todos os demais. Dessa forma, todas as economias humanas caem sob a lei liberal, ou seja, a lei do proveito onde tudo deve ser rentável, incluindo as atividades que antes não estavam sob o mandato do rentável.
Por exemplo, neste momento eu e você estamos conversando, mas não buscamos rentabilidade e, sim, a produção de sentido. Neste momento estamos em uma economia discursiva. Mas hoje, até a economia discursiva está sujeita ao “quem ganha mais”. Cada uma das economias humanas está sob a mesma lógica: a economia psíquica, a economia simbólica, a economia política, daí o derretimento da política. O político só existe hoje para seguir o econômico. A crise que atravessa a Europa mostra que, quanto mais ela se aprofunda, mais a política deixa a gestão nas mãos da economia. A política abdicou ante a economia e esta tomou o poder. Os circuitos econômicos e financeiros se apoderaram da política, A crise é, por conseguinte, geral.

O título de seu livro, “O homem que vem depois do liberalismo”, implica a dupla ideia de uma fase triunfal e de um fim do liberalismo…
DRD: Paradoxalmente, no momento de seu triunfo absoluto o liberalismo dá sinais de cansaço. Nos damos conta de que nada funciona e as pessoas vão tomando consciência desta falha e têm uma reação de incredulidade. Os mercados se propuseram a ser uma espécie de remédio para todos os males. Você tem um problema? Pois então recorra ao Mercado e este aportará a riqueza absoluta e a solução dos problemas. Mas agora nos damos contra de que o mercado acarreta devastações. 
Assim, vemos como esse remédio que devia nos fornecer a riqueza infinita não traz senão miséria, pobreza, devastação. O capitalismo produz riqueza global, sim, mas ela é pessimamente repartida. Sabemos que há 20, 30 anos, as desigualdades têm aumentado pelo planeta. A riqueza global do capitalismo despoja de seus direitos a milhões de indivíduos: os direitos sociais, o direito à educação, à saúde, em suma, todos esses direitos conquistados com as lutas sociais estão sendo tragados pelo liberalismo. O liberalismo foi como uma religião cheia de promessas. Nos prometeu a riqueza infinita graças a seu operador, o Divino Mercado. Mas não cumpriu a promessa.

Em sua crítica filosófica ao liberalismo, você destaca um dos principais estragos produzidos pelo pensamento liberal: os indivíduos estão submetidos aos objetos, não aos seus semelhantes, ao outro. A relação em si, a sensualidade, foi substituída pelo objeto.
DRD: As relações entre os indivíduos passam ao segundo plano. O primeiro é ocupado pela relação com o objeto. Essa é a lógica do mercado: o mercado pode a cada momento agitar diante de nós o objeto capaz de satisfazer todos nossos apetites. Pode ser um objeto manufaturado, um serviço e até um fantasma construído pelas indústrias culturais. Estamos em um sistema de relações que privilegia o objeto antes do sujeito. Isso cria uma nova alienação, uma espécie de vício com os objetos. Esse novo totalitarismo que é o liberalismo coloca nas mãos dos indivíduos os elementos para que se oprimam a si mesmos através dos objetos. O liberalismo nos deixa a liberdade de alienarmos a nós mesmos.

Você situa o princípio da crise nos anos 80 através da restauração do que você chama de a narrativa de Adam Smith. Você cita uma de suas frases mais espantosas: para escravizar um homem é preciso dirigir-se ao seu egoísmo e não a sua humanidade.
DRD: Adam Smith remonta ao século XVIII e sua moral egoísta se expandiu um século e meio depois com a globalização do mercado no mundo. De fato, Smith demorou tanto porque houve outra mensagem paralela, outro Século das Luzes, que foi o do transcendentalismo alemão. 
Ao contrário das Luzes de Smith, as alemãs propunham a regulação moral, a regulação transcendental. Essa regulação podia se manifestar na vida prática através da construção de formas como as do Estado a fim de regular os interesses privados. A partir do Século das Luzes, há duas forças que se manifestam: Adam Smith e Kant. Esses dois campos filosóficos coexistiram de maneira conflitiva ao longo da modernidade, ou seja, através de dois séculos. Mas, em um determinado momento, o transcendentalismo alemão perdeu força e deu lugar ao liberalismo inglês, o qual adquiriu uma forma ultraliberal. Pode-se datar esse fenômeno a partir do início dos anos 80. Há inclusive uma marca histórica que remonta ao momento em que Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, chegam ao poder a instalam a liberdade econômica sem regulação. Essa ausência de regulação destruiu imediatamente as convenções sociais, ou seja, os pactos entre indivíduos.

Daí provém a trilogia “produzir, consumir, enriquecer”. Você chama essa trilogia de pleonexia.
DRD: O termo “pleonexia” é encontrado na República de Platão e quer dizer “sempre ter mais. A República grega, a Polis, foi construída sobre a proibição da pleonexia. Pode-se dizer então que, até o século XVIII, toda uma parte do Ocidente funcionou com base nessa proibição e se liberou dela nos anos 80. A partir daí se liberou a avidez mundial, a avidez dos mercados e dos banqueiros. Lembre o discurso pronunciado por Alan Greenspan (ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos) ante a Comissão norteamericana depois da crise de 2008. Greenspan disse: “pensava que a avidez dos banqueiros era a melhor regulação possível. Agora, me dou conta de que isso não funciona mais e não sei por quê”. Greenspan confessou assim que o que dirige as coisas é a liberação da pleonexia. E já sabemos para onde isso conduz.
Chegamos agora ao depois, ao hipotético ser humano de depois do liberalismo. Você o enxerga sob os traços de um indivíduo simpático. Que sentido tem o termo simpático neste contexto?
DRD: Ninguém é bom ao nascer como pensava Rousseau, nem tampouco mau como pensava Hobbes. O que podemos fazer é ajudar as pessoas a serem simpáticas, ou seja, a não pensarem somente em si mesmas e a pensarem que, para viver com o próximo, é preciso contar com ele. O outro está em mim, as imagens dos outros estão em mim e me constituem como sujeito. A própria ideia de um indivíduo egoísta é sem sentido porque isso obriga a que nos esquecer de que o indivíduo está constituído por partes do outro. E quando falo de um indivíduo simpático não emprego o termo em sua acepção mais comum, alguém simplesmente simpático, digamos. Não, trata-se do sentido que a palavra tinha no século XVIII, onde a simpatia era a presença do outro em mim. Necessito então da presença do outro em mim e o outro precisa de minha presença nele para que possamos constituir um espaço onde cada um seja um indivíduo aberto ao outro. Eu cuido do outro como o outro cuida de mim. Isso é um indivíduo simpático.

Sigamos com a simpatia, mas sobre que bases se constroi o indivíduo que vem depois do liberalismo? A razão, a religião, o esporte, o ócio, a solidariedade, outra ideia de mercado?
DRD: Neste livro fiz um inventário sobre as narrativas: a narrativa do logos, da evasão da alma dos gregos, a narrativa sobre a consideração do outro nos monoteísmos. Dei-me conta de que em ambas narrativas havia coisas interessantes e também aterradoras. Por exemplo, a opressão das mulheres no patriarcado monoteísta equivale à opressão da metade da humanidade. Por acaso queremos repetir essa experiência? Certamente que não.
Outro exemplo: no logos, para que haja uma classe de homens livres na sociedade é preciso que haja uma classe oprimida e escravizada. Queremos repetir isso? Não. Refundar nossa civilização após os três caminhos sem saída que foram o nazismo, o estalinismo e o liberalismo requer uma refundação sobre bases sólidas. Por isso realizei o inventário, para ver o que podíamos recuperar e o que não, quando do passado podia nos servir e quanto não. A segunda consideração diz respeito àquilo que poderia ajudar o indivíduo a ser simpático, ao invés de egoísta. Neste contexto, a ideia da reconstrução do político, de uma nova forma do Estado que não esteja dedicado a conservar os interesses econômicos, mas sim a preservar os interesses coletivos, é central.

Qual é, então, a grande narrativa que poderia nos salvar?

DRD: Deixamos no caminho as grandes narrativas de antes e acreditamos cada vez menos na grande narrativa do mercado. Estamos à espera de algo que una o indivíduo, ou seja, uma grande narrativa. Eu proponho a narrativa de um indivíduo que deixou de ser egoísta, que não seja tampouco o indivíduo coletivo do estalinismo, nem tampouco o indivíduo mergulhado na ideia de uma raça que se crê superior, como no nazismo e no fascismo. Trata-se de um a narrativa alternativa a tudo isso, uma narrativa que persiste no fundo da civilização.
Creio que o valor da civilização Ocidental se radica no fato de ter colocado o acento na individualização, ou seja, na ideia da criação de um indivíduo capaz de pensar e agir por si mesmo. Não é para esquecer a noção de indivíduo, mas sim reconstruí-la. Contrariamente ao que se diz, não creio que nossas sociedades sejam individualistas, não. Nossas sociedades são lamentavelmente egoístas. Isso me faz pensar que há muita margem de existência ao indivíduo como tal, que há muitas coisas dele que não conhecemos. 
Temos que fazer o indivíduo existir fora dos valores do mercado. O indivíduo do estalinismo foi dissolvido na massa do coletivismo; o indivíduo do nazismo e do fascismo foi dissolvido na raça, o indivíduo do liberalismo foi dissolvido no egoísmo. O indivíduo liberal é um escravo de suas paixões e de suas pulsões. Devemos nos elevar desse caminho sem saída liberal para recriar um indivíduo aberto ao outro, capaz de realizar-se totalmente.
Há textos filosóficos de Karl Marx que não são muito conhecidos e nos quais Marx queria a realização total do indivíduo fora dos circuitos mercantis: no amor, na relação com os outros, na amizade, na arte. Poder criar o máximo a partir das disposições de cada um. Talvez seja o caso de recuperar essa narrativa do Marx filósofo e esquecer o do Marx marxista.